Edição 03
Editorial
A cidade estava nua, de uma nudez que revelava uma crueldade, sem limites…
Temos certeza de que a quase totalidade de nossos leitores não tinha nascido, em 1948, quando foi lançado nos cinemas Naked City (Cidade Nua), um o filme policial, em preto e branco, baseado nos crimes e dramas da cidade de Nova Iorque, sucesso nas telas do mundo todo. Sucesso tal que, na década seguinte (de 1958 a 1963), transformou-se numa série de TV, com 138 episódios de cerca de 60 minutos.
No Brasil, a série Cidade Nua estreou na TV Record, em 1963. Ia ao ar à s segundas-feiras, no horário nobre das 21h30. No ano seguinte, estava também na TV Gaúcha, no mesmo horário. Em 1971, foi para a TV Bandeirantes e, em 1988, passava na Gazeta. Até a década de 90 ainda era possÃvel rever, em preto, branco e nuances de cinza, a crueldade das ruas novaioquinas, pela TV GuaÃba, de Porto Alegre.
Os jovens das periferias de São Paulo e demais metrópoles brasileiras não precisavam de aparelhos de televisão para ver e vivenciar a frieza e a crueldade da cidade nua. Ela os envolvia, os torturava, os marginalizava e os discriminava o tempo todo. Era preciso vestir a cidade. Cidade cinza que carecia, com urgência, de cores. Por isso, munido de latas de tinta spray, tinta látex, esponjas, pincéis, steincis, canetões de ponta porosa, luvas, máscaras, lonas, estiletes e uma série de outras quinquilharias, um batalhão de jovens escritores do graffiti assumiu a missão de vestir a cidade.
Uma verdadeira guerrilha urbana de paz, muitas vezes, combatida com armas de guerra. Mas venceu a paz: nossas cidades estão cobertas por um vestido estampado por graffiti, cada vez mais belas, sempre se renovando, se recolorindo, enchendo de encantos os olhos de seus moradores e visitantes.
Se depender de nós, as cidades deste paÃs – quem sabe, deste planeta – jamais voltarão a ser nuas, cinzas, cruéis. Por isso, ousamos afirmar que o graffiti é essencial para a estética da cidade.
Será que existe um poema mais concreto e envolvente que o graffiti? Não. Não deve existir. A poesia das ruas, das cores, da renovação permanente, da juventude, da eterna juventude… Sim, estamos aqui para vestir a cidade!
Coletivo 5 Zonas
São Paulo, 14 de Abril de 2010





