Edição 04
Próximo lançamento dia 24/11/2010. Acompanhe informações na página de Eventos
Editorial
Pixo, logo insisto!
O artista é, antes de tudo, um inconformado. O acomodado e o satisfeito não têm motivação para criar. Então, não é exagero afirmar que a boa arte é uma forma de transgressão.
Não. A poética da transgressão não foi inventada pela nossa geração. Nem a da ousadia, a da eterna insatisfação juvenil, a do anseio por transformações, a do enfrentamento contra tudo o que é pré-estabelecido. Não fomos os primeiros a serem perseguidos pela polícia, pela sociedade, pela mídia, nem seremos os últimos.
Com a palavra, Augusto dos Anjos: “… O Homem, que, nesta terra miserável / Mora, entre feras, sente inevitável / Necessidade de também ser fera. (…) Toma um fósforo. Acende teu cigarro! / O beijo, amigo, é a véspera do escarro / A mão que afaga é a mesma que apedreja…”. Sabe como ele encerra seu poema? “… Apedreja essa mão vil que te afaga /
Escarra nessa boca que te beija!” Um punk, muito tempo antes de surgir esse movimento.
E, só para lembrar, o cara nasceu no fim do século 19 e morreu com 30 anos, em 1914. Existisse tinta splay, em seu tempo, Augusto dos Anjos seria um poeta-pixador. Um transgressor enfrentando a tediosa falta de perspectiva juvenil, na virada do século.A transgressão do pixo começa pela própria escrita. Se o certo seria escrever “pichador”, eles se assumem “pixadores”. Esse é o X da questão: não aceitar imposições, nem limites. Romper o que é considerado normal, certinho, bem-comportado. Subir o mais alto, afrontar o mais sagrado… “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”, já cantavam os Tropicalistas, pixadores da caretice, que era a MPB de seu tempo.
Afinal, qual é “a poética do pixo”? Talvez ela não esteja tanto na inventividade do formato peculiar de traços retos e angulosos, ou nos tags – a marca deste ou daquele pixador –, mas na própria forma de viver, de se organizar, de entender a paisagem urbana, em constante transformação. Resumindo: é a poética da “efemeriadade”.
Sabe o que é isso? È que “tudo é passageiro”, assim como a vida que, por isso, deve ser vivida com intensidade. Muitos já não se lembram ou nem conheceram pixos famosos, como os dos anos 70 e 80: Cão fila, édificil, gonha mó breu, entre outros. Precursores dos pixos atuais. Se quiser, pode até chamar de old school, Ou não. Mas abriram caminho para o que está aí.
O pixador nunca está só. O pixo é arte de correr lado a lado, sem atropelo. Aliada do graffiti, troca idéia com o Hip Hop, circula de skate e corre junto com toda e qualquer forma de contracultura. Passa debaixo da catraca do buzão. Vem de quebradas diversas – é a periferia invadindo o centro –, junta-se nos points – na Olido, na Galeria do Rock, em subsolos, por aí
afora –, assina a folhinha dos que chegam, ajudando-os a acumular troféus, aprendizado. O pixo está nos muros, nos prédios, nas pontes, nos monumentos, na alma de cada pixador. Cada um que é capaz de identificar com marcas, tags, cada um que explode em adrenalina, diante de vídeos de pixos, revistas e álbuns de figurinhas. Que não se separa de suas latinhas de tinta spray, seus rolinhos, sua tinta látex, seus bastões de giz de cera, seu pincel atômico.
Seja qual for o teu feito, mano, por mais alto, por mais perigoso, lembra sempre que só com humildade, lealdade e proceder é que você pode se considerar um pixador verdadeiro. Dignifica a história dessa arte, pela qual muitos foram sacrificados, banhados na própria tinta, pela crueldade da repressão. Nas correrias das noites e madrugadas, lembre sempre daqueles
que não estão mais por aí, que agora estão pixando o andar de cima. Com certeza, de lá, eles se orgulham dessa tribo, que não desiste jamais.





